Acordo, recesso,no meio da rua,
Miro... Uma vida que se perpétua
Sento-me, reflito no que sou,
Por vezes desespero no que estou.
Um gato que me cruza o caminho,
Diz-me que devo ir muita vezes sozinho
E sem nada me tento, num rumo levar,
Sem ninguém, em tom de palavras, me desgraçar.
Porque a cada dia que passa, já nem sou,
Tento me identificar em mim,mas já nem estou,
De uma memória de vida que me quis perder
Às vezes só me quero libertar e por fim esquecer.
Constante em mim, preso nesta consciência,
Por vezes tento fugir da minha transparência,
Copo a copo vai a minha discernescência fugaz,
De quem tenta apagar do que relembra atrás.
São mitos e sonhos de quem não o quer,
Pois tento eu nunca o ser sequer,
Tempo a tempo, memória etereal,
Julgo não ser real
Um a cada, sinto esse momento,
Sem vontade, nenhum contentamento,
Bate que bate, ainda rastejo,
Dia de sol que antevejo...
Ópio que não é ópio algum,
Mas que me abrigo sem nenhum,
Morro que morro, vivo mas vivo ainda
Numa linha que teima e não finda.
Brego, mas num fim sóbrio talvez,
Nem culpo de quem um dia me fez,
Porque quem manda é o meu voluntário,
Que me risca a vida num qualquer diário.
Será que apenas no fim estou, corpo inanimado?
Ou apenas preso numa memória, desesperado,
Já nem adeus me apetece sequer acenar,
Neste nunca fim que teima em mim desesperar.
Aguardo aquela chuva que me acalma,
Pois que não sabes, mas dói me a alma,
E as pingas, uma a uma, são minha companhia,
A mim mas do que eu poderia querer a quem devia.
Sombra do que guardei para não te ver sofrer,
Que a minha alegria é algo que vejo a perder,
Tal como fruto que se deixa de uma árvore ir,
Alegre, idiota, porque no fim nunca quis cair.
Porque no final o que estou é exausto,
Exausto de mim sem qualquer fausto,
De mim me fartei de o ser e de combater,
Sou mudo no que vivo e no que tenho a perder.

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