segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Morto em Carne Humana

Acordo, recesso,no meio da rua,
Miro... Uma vida que se perpétua
Sento-me, reflito no que sou,
Por vezes desespero no que estou.

Um gato que me cruza o caminho,
Diz-me que devo ir muita vezes sozinho
E sem nada me tento, num rumo levar,
Sem ninguém, em tom de palavras, me desgraçar.

Porque a cada dia que passa, já nem sou,
Tento me identificar em mim,mas já nem estou,
De uma memória de vida que me quis perder
Às vezes só me quero libertar e por fim esquecer.

Constante em mim, preso nesta consciência,
Por vezes tento fugir da minha transparência,
Copo a copo vai a minha discernescência fugaz,
De quem tenta apagar do que relembra atrás.

São mitos e sonhos de quem não o quer,
Pois tento eu nunca o ser sequer,
Tempo a tempo, memória etereal,
Julgo não ser real

Um a cada, sinto esse momento,
Sem vontade, nenhum contentamento,
Bate que bate, ainda rastejo,
Dia de sol que antevejo...

Ópio que não é ópio algum,
Mas que me abrigo sem nenhum,
Morro que morro, vivo mas vivo ainda
Numa linha que teima e não finda.

Brego, mas num fim sóbrio talvez,
Nem culpo de quem um dia me fez,
Porque quem manda é o meu voluntário,
Que me risca a vida num qualquer diário.

Será que apenas no fim estou, corpo inanimado?
Ou apenas preso numa memória, desesperado,
Já nem adeus me apetece sequer acenar,
Neste nunca fim que teima em mim desesperar.

Aguardo aquela chuva que me acalma,
Pois que não sabes, mas dói me a alma,
E as pingas, uma a uma, são minha companhia,
A mim mas do que eu poderia querer a quem devia.

Sombra do que guardei para não te ver sofrer,
Que a minha alegria é algo que vejo a perder,
Tal como fruto que se deixa de uma árvore ir,
Alegre, idiota, porque no fim nunca quis cair.

Porque no final o que estou é exausto,
Exausto de mim sem qualquer fausto,
De mim me fartei de o ser e de combater,
Sou mudo no que vivo e no que tenho a perder.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Vem Por Aqui

Lento, lento, bate o tempo,
Minuto, um minuto, um lamento,
Duro, e pouco sóbrio o sentimento
que solta um suspiro de vencimento.

Corre, corre na frigidez,
Memórias de quem o fez,
Tento eu não ser feito,
Mas no fim ter proveito.

Quiçá se algum dia serei,
escravo do que nunca terei,
um trago no meu rosto,
um recado de desgosto.

Foge, foge talvez derrotado,
Talvez serei um exilado,
se volta a mim o proveito,
nunca me fiz do que aproveito.

Sem nexo...
como de mim um reflexo,
sentidos e visões sem nexo,
julgava-me menos complexo!!

domingo, 8 de outubro de 2017

Querer

Calem-se já os cães de antemão
Que é triste e cega esta solidão
Neste buraco em que me encontro
É apenas escuridão que defronto.

Zona negra em que me aconchego,
Único sou eu que a mim me sossego,
Alegria a minha de aqui querer ficar,
Triste cruz que eu por fim decidi carregar.

Que me perco por dias de eterna ilusão,
Decidi eu percorrer este destino de imersão,
Que se me fico, finalmente, enfim,
Foi ditado que eu agora decidi assim.

Se me cravo em mim palavras mudas,
decidi tirar das letras teorias desnudas,
Por minha vontade por aqui já fiquei,
De todo o autismo que outrora fitei.

Em pleno toque que nunca te tirei,
Foi triste a sina que eu apaziguei,
Morte certa do que a ti nunca viveu,
Foi do meu querer que assim sobreviveu.

E que aqui eu me disponha por fim,
Pois sempre necessitei de ser assim,
Triste realidade que me tirou a vontade,
Que de mim já não regresse a ansiedade.

Destino final que me requer última presença,
Neste canto que se torna a mim desavença,
Que eu morro e por fim volto a viver,
esperança de assim de eu me voltar a querer!

Vazio

Silêncio, entre o desespero da noite,
Há palavras que a mim são um açoite,
Pois eu, que vos quero sempre a bem,
Me perdi entre olhares que me fitam também.

Deserto, vazio que já em mim se propaga,
Nulo de sentimentos, que há muito se me apaga,
Pois eu, que sempre que me tento endireitar,
Acabo sempre no fim, órfão,por me desorientar.

Sem sabor, o que a mim já não existe,
Recalcamento de vivências que persiste,
Pois eu, talvez, que quando quero viver,
Me encontro sem rumo e me acabo por perder.

A morte, que nunca em vez alguma ansiei,
me faça pensar em ditos que nunca jurei,
Pois eu, que se me acudo sem me tentar,
Passei a minha vida sem sequer me perdoar.

A dor, que em mim foi bastante cravada,
É de uma triste glória que é relembrada,
Pois eu... que a ti já me ajoelhei,
Mas a felicidade nunca encontrei....

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Não É Um Lago, É Um Oceano

No meu fogo as memórias suspensas,
São soltas em loucuras intensas,
Já se calam os meus desígnios,
Em mim existem poucos raciocínios!

Quando decido olhar para atrás,
há uma dolorosa visão que me traz :
Descanso, como num útero uma criança
inocente e em descansada segurança.

Coros de lágrimas são como gemidos de baleias
que adivinham tempestades de dores alheias,
e é no oceano dos pensamentos trovejantes
que me latejam os sentimentos flamejantes!

Há no chão, pedaços de efémeras ilusões,
e é quando as demais tento varrer
que me perco em comas de várias emoções,
e me deixo ir sem ninguém me socorrer.

Existe no espelho, um sujeito estranho,
sente-se assim, por entre choros sonantes,
é solidão muda e são mágoas lancinantes,
é o tentador alívio sem qualquer tamanho.

No céu escuro persiste tamanha expressão
fito o que me parece ser um lago sem emoção,
nele estou à tona, em paz, afogado,
tela que não me deixa sequer indignado.

Achei que não não podia ser fraco,
porque quando morri voltei a renascer,
mais vivo e consciente do que posso ser,
e no fim das cinzas ainda mais opaco.

Todos os dias persisto em me procurar
pois no final do dia não foi a ti que perdi,
por mais que me procure não me vou encontrar,
à noite no lago em que me deixei e despi!

domingo, 24 de setembro de 2017

Quando As Cortinas Se Fecham

Quando as cortinas se fecham
Persistem as memórias que me mantinham
O tempo que me passa, estou expectante,
Fantasma de mim, que julgo eu irrelevante
Guardo pensamentos de semblante,
Do que quero que ainda seja importante
Do que foste e me deixaste ficar,
Acreditei que tudo não está para terminar.
Desde que partiste que não fui mais,
minutos e outros momentos são agora banais
Quis eu tudo deixar por fim fugir,
promessas que nunca quis desistir.

Quando no peito, sinais em lágrimas desenho,
arrependimentos cismados do que desempenho,
Não queria que a vida fosse assim,
Apenas que esse dito traçasse algo em mim.

O livre destino preso em regras de orgulho,
Em algum sentido que antevejo o que torturo,
Algo me deixa neste fogo e não é visto,
terno o sentimento que, quando solto, acho risco.

Espectro do que poderíamos vir a ser,
frases ténues que continuo a obedecer
poeira de delírios que me deixa em aconchego,
que se livra de mim todo o desassossego.

Fecham as cortinas do que espero,
Na frigidez do que eu ambiciono e quero,
Corticóides e delírios de quem sonha
De tudo mais e algo que me componha!

Tento ser bravo por caminhos que desconheço,
De joelhos a pagar chagas a todo o preço,
Dentro de mim já não vejo por entre lágrimas,
As quais nunca quiseram ser paradigmas!

Mas por dentro, por dentro eu apodreço,
Espectro do que eu vivo e enlouqueço,
por entre sonhos que nunca mais quis mirar,
quiseram os pirilampos a luz acordar.

Volto o envolto, profecias desenhadas,
quero e mais quero promessas cobradas,
infinito do que penso e mais repenso,
que me deixa, e quero que deixe, em suspenso.

Fixo o ontem como se amanhã mais uma vez fosse,
Do passado que ainda não me larga e me acosse,
Em vez alguma quis que hoje acordasse assim,
Nem num novo despertar quero ter o mesmo fim.

Julgo enfim ter, no que aponto, algum sentido,
que na vida e na morte nunca fiquei ressentido,
soltos os ditos que liberto sem nunca perceber,
Menos sentido faz eu continuar em mim ser!


domingo, 1 de janeiro de 2017

Em Silêncio

Em silêncio aguardo pelo que me resta,
palavras gélidas que fito por uma fresta,
sol escondido que impulsivamente quero afugentar,
pois é no abrigo da noite que me quero afogar!

Em silêncio uivo a loucura muda e desnuda,
fito o olhar do demo, a quem procuro ajuda,
que me atente à carne e ao vinho, sou submisso,
perco o alado, nele me alimento, bastante remisso!

Em silêncio quero manter meu sentimento,
apenas procuro em tom de toque, meu alimento,
em lábios de graça que me digam que sou algo,
e que nada sou, ou justamente sou afinal valgo

Em silêncio sou o que sou sem nada querer ser,
depois de muitas vezes eu me tentar viver,
tento ser aquilo que ainda não me decidi a existir,
e hei-de lá chegar sem nunca a tal me permitir!

Em silêncio esquartejo este estado de espirito,
a mentira do que me coloquei a ser no restrito,
do aparentar ser a força e a torre que não tomba,
da consciência que estava a armar uma bomba!

Em silêncio aguardo pelo que me resta,
luta contra o tempo, aguardo já pela besta,
grão a grão um punhado, queimo o que penso,
no chão um suspiro derramado, comigo por fim tenso!