segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Bipolar

Batem as dozes badaladas, há uma almofada,
empunho a arma, na cabeça encostada,
dedos no gatilho, sussurros devaneantes,
não sei se dispare, pensamentos redundantes.

Liberto essa raiva, não tenho a certeza,
é hora do fim, em mim esta dura avareza,
eu sei que sou capaz, minha figura expectante,
não tenho dúvidas, jaz negro meu semblante!

Quero fazê-lo, as mãos na balança,
numa hesitação, soltam qualquer aliança,
vou fazê-lo, de culpas me liberto
não duvido, peso que me julgará decerto!

Cubro-te com um lençol, meu corpo a tremer,
olho-te mais uma vez, porque te quero esquecer,
é última despedida, não voltarei a pecar,
fito teu fantasma, estou-te a abandonar!

Nas ruas da amargura, deambulo sem destino,
já sem forças, sou eu que me arruíno,
eu me ajoelho, em mais um trago de absinto,
desisto de mim, um coma que eu já pressinto!

Fecho meu olhar, de alto a minha punição,
acalmo meu respirar, cai em mim minha condição,
solto meus lábios, defendo-me com palavras mudas,
deixo-me, em mim estacas pontiagudas!

sábado, 3 de dezembro de 2016

Quando Apaguei A Luz Já Era Quase De Dia

Na corda onde me entrosei, foi só uma coisa que eu ansiei...

A morte.
A morte.
A morte.
A morte.
A morte.
A morte.
A morte.
A morte.
A morte.
A morte.
A morte.
A morte.
A morte.
A morte.

A cada sussurro dos ponteiros do relógio...

A morte.

Pecado


Um copo entornado é sinal de violação,
abutres em torno de carne em putrefacção,
aberto o prazer deslavado e abandonado,
à chuva que cai neste corpo atrocidado,
que já não é santa a Maria encarnada,
e não foi o destino que lhe armou cilada!

Podre a invisibilidade colocada no fusto,
que do seu prazer apenas ficou o susto,
saboroso o ventre entre dedos entrelaçados
cospe o vento nos seus ossos quebrados.

As velas, são o fim pedido ao vento,
barulho forte no delicado Crisântemo,
aspira-se seu sujo aroma a suores de desejo,
neste seu berço houve gracioso despejo!

Vestal que desejava sentir o orvalho,
fugas na noite em que perdeu o agasalho,
em seus lábios houve sinais de olhares perdidos,
soltaram-se dentes ansiosos por fel e mel.

Fugiu sem parar da morte que há muito a fitava
tornou a sede de sangue que não a abandonava,
quis o desespero que bebesse do proibido cálice
e no seu escuro interior sentisse longo córtice,
volto ao seu toque de dormências invejadas,
na sua face há mil e uma cruzes cravejadas!

A Himeros vendeu a alma por doze badaladas,
doce assalto que lhe torna as armas empunhadas,
a espada da justiça já atravessou o pecado,
condenou a culpada a eterno movimento desalmado,
pois é no movimento perpétuo que se vê sinceridade
entre desolhares que gritam ambiguidade!

domingo, 4 de setembro de 2016

Noite

Calem-se já os cães de antemão,
Que é triste e cega esta solidão,
Neste buraco em que me encontro,
É apenas escuridão que defronto,

Zona negra em que me aconchego,
Único sou eu, que a mim me sossego,
Alegria a minha de aqui querer ficar,
Triste cruz que eu por fim decidi carregar

Que me perco por dias de eterna ilusão,
Decidi eu percorrer este destino de imersão,
Que se me fico, finalmente, enfim
Foi ditado que eu agora decidi assim.

Se me cravo em mim palavras mudas,
Decidi tirar das letras teorias desnudas,
Por minha vontade por aqui já fiquei,
De todo o autismo que outrora fitei.

Em pleno toque que nunca te tirei,
Foi triste a sina que eu apaziguei,
Morte certa do que a ti nunca viveu,
Foi do meu querer que assim sobreviveu.

E que aqui eu me disponha por fim,
Pois sempre necessitei de ser assim,
Triste realidade que me tirou a vontade,
Que de me mim já não regresse a ansiedade.

Destino final que me requer última presença,
Neste canto que se torna a mim desavença,
Que eu morro e por fim volto a viver,
Esperança de assim eu me voltar a querer.

Salvador Machado Guerra

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Cá Te A Está

É um crime não poder ver,
hoje, o que passei a querer,
abraço gélido a que me agarro,
tão quente que me sinto bizarro!

E se o, algum vez, quis amarrar,
sentimento que me abre sem esperar,
fujo já sem fôlego desta perseguição,
que me traz ansiosamente o coração!

Cá te a está! Impulso que me faz escrever!
Sou são! Palavras que me fazem viver!

Obedeço ao que o caminho me faz passear,
longe das silvas eu já me quero arejar,
mas não quero perder esta insanidade,
que me faz regredir ainda na idade!

Que da escuridão se faça luz infinita,
que a cada passo, minha vontade já não exita,
perante olhares estranhos e com ansiedade,
eu só queira viver uma única verdade!

Cá te a está! Impulso que me faz escrever!
Sou são! Palavras que me fazem viver!

Que dos longos doirados o azul se faça notar,
tornado à excitação de alguma vez te poder tocar!
Boémia a vida que não me deixa de alguma forma
sentir que o juizo seja certamente norma!

Modéstia intíma que no prometido que é devido,
que esperei que algo fosse certamente surgido,
da espontaneidade que tentei alguma vez acertar,
falhei na tentativa de uma única vez me expressar!

Cá te a está! Impulso que me faz escrever!
Sou são! Palavras que me fazem viver!

Palavras essas que poderão sempre ser as ultimas,
pois já não tenho a vontade de ser em estimas!
Todos os dias sinto que poderão finalmente o fim,
mas acordo todos os dias sem esse prometido sim!

Remorsos do que poderei fitar em no fim ficar,
que se me liberta em mim a ânsia de não me agarrar,
Já não sou o que alguma vez fui em tentar ser,
cinzas do que quis nesta podre vida, enfim, ter!

Salvador Machado Guerra

Coroa de Espinhos

Alma que chama e me revoga a vida,
que me revejo nesta noite já lívida,
fio curto que me abraça o olhar despercebido,
que decidi em sonhos já me ter devolvido!

Num longíquo e delicado toque de podridão,
que me acende a terna e devassa excitação,
eu sei que me rastejo pelos caminhos do errado,
decisões pelas quais serei sempre mal amado!

E como eu necessitei de me vencer num demonio,
raiva que consome a visão e torna em pandemonio,
insanidade que me torna num ser tão desesperado,
neste salivar que faz de mim algo realizado!

Esqueletos que me requerem vezes sem conta,
crianças selvagens que me rodeiam em afronta,
apontam o dedo à luz dos pecados que já realizei,
rumos que a vida me fez tomar mas que nunca desejei!

Coloca-se-me a coroa de espinhos ao meu peito,
cravada em mel, neste talvez já meu ultimo leito....

Vem até mim, acaba com a minha respiração,
leva-me o ultimo suspiro em adoração,
olhar já de perto fechado,
em tom acalmado,
vem-te...

Salvador Machado Guerra

Na Forca

Queimo páginas de memórias,
lembranças de outras glórias,
sou mera amostra do que tive que ser,
olhares que o tempo viu apodrecer,nesta chama fria que me atormenta
decisões que minha sede enfrenta,
e ao olhar para cima meu eterno futuro,
amarrado em círculo, por baixo o muro,
encontro meu negro estado de mente,
demente, sou eu só, indiferente!

É suspenso neste sufoco amarrado
que o tempo pára! Está desfocado!
Encontro-me só, já sem salvação,
ultimos suspiros que tomo atenção,
na agoniante a garganta que toma!
Me faz a vontade este hematoma!

Raiva do vazio que em mim se instalou,
parte fraca que em mim não se dispersou!

Que me tentas fazer partir sem nunca me largar
a mim o anjo da morte só me está a fitar!
Que me rasque o ventro enquanto me saboreia
o amor do prazaer que tenho desta dor que odeia!

E quando me salta e torce a podridão,
é nela que me inspiro e solto a solidão!

Quando já não há forças para mais uma vez
me golpear o sabor que nunca me satisfez,
me deliro no último suspiro que me tomou
o lato descontentamento que me ousou!

Por fim....

Salvador Machado Guerra

Capital

Cinzento, em torno do que me é respeito,
este falso brilho que é de meu proveito,
é êxtase sussurrado em flagrante espiral,
que eu vivo nesta escuridão sem final.

Que se me cravo em mim minhas presas,
é doce o mel que jorra das indefesas,
e eu quero, pois é louco o oco irremediado
é apaixonante o ato descontextualizado.

A mim me perdoo a luxúria do pensamento,
é de minha vontade o eterno lascivo lamento,
de não me poder sentir encalorado neste instante,
nesta multidão de anseios que é constante.

Eu que me tento, sem querer, de controlar
que paro, sem nunca me querer largar
que quando venho a mim, estou de arma empunhada,
expectante à palavra da escuridão irada!

Se em mim me faço o que é de eterna solidão,
que ninguém me toca neste meu tronco de emoção,
que te quero esses utópicos lábios ensalivados,
que estou sedento por desdenhar os sossegados!

É meu o gélido sentimento nulo e corajoso,
neste túmulo em que temo sem ser moroso,
aguardo que me acalentem em virgem discurso
nessa língua sensual que me desperta o impulso!

E quando me sinto perseguido pela minha insanidade
é puro orgulho que lanço da sombra em vanidade...
E quando eu não receio seguir este sentimento,
temo que do mundo eu espelho arrependimento!

Salvador Machado Guerra

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Túmulo

Neste meu túmulo que me olham de cima,
esqueletos desertos que não fazem mínima,
rodeado de covas e crueldade que é sádica,
ja a lembrança de mim se torna esporádica!

Quando o sussuro do silêncio me falou
deixei em mim quem de mim nunca decifrou,
sufoco que me atormenta friamente a palavra,
debaixo de um olhar de quem em mim não lavra.

Paro, penso, repenso e temo o pensamento,
que nesta escuridão é duro este tormento,
este nevoeiro que me pega e me desgraça,
torna-se-me a mim a noite que é devassa!

Olhei na minha frente a fonte perdida
de quem jorra fel de profunda ferida,
que me fundamento em inábil desespero,
neste viver que azedamente tempero!

Putrefacta a vida que não desiste,
e em mim, olhar em frente assim insiste,
quando já há muito devia tentar perder
o mundo que a mim me fez tudo esquecer

Salvador Machado Guerra

Amor É Fogo

Amor poderia ser fogo que arde sem se ver,
mas lato o desejo de te poder a meu lado ter,
é visível a chama que por ti teima em não apagar,
forte este sentimento que não pára de me chamar.

Deito-me neste leito deleite por te poder beijar,
consistente a cobiça de te agarrar e nunca mais largar,
de me agradar de teu cheiro pelo teu corpo fora,
desnudada que estás, neste meu toque que te adora.

Não é ferida que dói, é ferida que se sente,
que doce e vil o teu sorriso em mim assente,
nesta alegria que me motiva a nunca parar,
que forte o soar do meu corpo em ti a ecoar...

E se, finalmente, eu hoje pudesse na tua presença dormir
em contacto neste nunca sono que não te deixa fugir...
é forte e demorada no teu olhar esta motivação,
que em uníssono com meu, bate forte o teu coração...

Não me contento nem, em vez alguma, me descontento
da tua presença que insiste em me deixar em desalento,
que me faz gritar, berrar e me soltar em desespero,
que a tua ausência me eleva e cega ao exaspero!

Teu paladar que, deliciosamente, me atravessa,
e que me deixa profundamente a cabeça à avessa,
doce e único, que busco, o teu néctar cavado,
em meu coração derretido fica para sempre gravado!

Não é dor, desatina, mas sem alguma vez doer,
foi assim que me deixei por ti desta forma perder,
e em vez alguma um passo meu te faça sofrer,
que meu peito irei calejar até sangue correr.

E é pois minha aflição e maior temor o ouvir
do triste som das tuas meigas lágrimas a cair,
que para impedir tal, te ofereço o meu sorriso,
em tom de futuras memórias nossas que friso!

É um querer mais, e ainda mais bem querer
teu próprio conforto, que é nele que me quero ver,
tua imersa felicidade é espelho do que quero ser,
e nele para sempre eu me quero ver a envelhecer...

Salvador Machado Guerra

Moiras


De quem rasteja que me remove o coração,
nesta epístola sem qualquer razão
pois cedo me cedo à já tardia Hamartina
que me levou de certame à rotina,
revolta que me laqueia o grito insano,
preto e branco lambido em sangue puritano,
que saco deste lânguido pensamento de dor
e com este pensamento desenho traço de furor
neste meu peito tremido e cansado
e me foge o deleite vermelho revoltado,
sacrifício dedicado às Moiras desmedidas,
divertidas em abrir novas e profundas feridas.

Que salto em nirvana por campos inexistentes
entre toques de ternura de ideias doentes,
punhos cerrados na traqueia que adormece,
pena capital que não nega e nem desvanece,
cérebro que desiste e dificilmente pega
e coração que bate com mais raiva cega,
quanto mais funda a ferida pior a saída,
mais fria e incoerente vingança servida.
A sós com o meu pensamento me entranho
na putrefacção de um todo estranho
corrompedor de gestos simples e medidos
na contenção de entusiasmos não oferecidos.

Nesta louca e terna loucura que me assombro,
ao velhor olhar de rompante que arrombo
do tronco a fúria descrita em grito rouco,
os inocentes crimes que souberam a pouco,
junto aquele toque que me apertou a visão,
ceguez abrupta que me aperta o coração,
sufoco que a mão me estende no turvado
que nos infernos me deleito só e curvado,
embebedado no meu fel e áspero hálito
alegre este meu arrastado hábito,
perturbado em aspirações que não concretizam
e que à minha insignificância se enfatizam.

Salvador Machado Guerra

A Mim

Desceu o tenebre pecado latejado
de um frio desejo carnificado,
da vida fria que lhe havia rodeado
uma tentação de quem jaz queimado,
de quem paz aos inocentes roubou,
insaciavelmente as entranhas violou
dos sufocados virgens com quem penetrou,
até ao orgasmo que nos encerrou.
E quem o mudo choro das crianças sente,
é queimado sobre o calmo altar de Dante,
eis então a derradeira caminhada errante
sem julgadmento destruída de rompante
E depois do agudo grito sem fim

Na revolta da horda do sentimento
a quem a morte sorriu felizmente,

- foi a a mim... -

Depois do louco uivo assustador,
o término de um sacro turtor
tentam elas viver já sem fugor,
foram as filhas vítimas da dor.
Que nesta infeliz e fria madrugada,
já os sussurros aguardam melhor alvorada
livre de alguma memória desassossegada,
liberta e para sempre enterrada.
É ultima e terminada a revolta,
cerram-se olhares de quem já não volta
em felicidade um adeus se envolta
daqueles a quem um gesto não se solta.
Pois foi depois do agudo grito sem fim

Quem um duro e aliviante adeus ferveu,
a quem a dor e alegria faleceu,

- foi a mim...-

Salvador Machado Guerra

Chamaram?

Parece que ouvi o meu nome,
não, estava a sonhar a fome,
por entre tristezas e dissabores,
fome de sentir os teus louvores,
não os sinto, nem a chama,
a força que o coração proclama,
sinto a tristeza e a solidão
mas essas nunca foram em vão,
são o abrigo de quem desespera
e eu desesperei à tua espera,
era de noite, a vida esquecia,
sou agora o que fui, amanhã não o serei,
serei a memória que nunca realizei,
não te chamo, te esqueço,
porque assim o mereço,
retalho do que sonhaste
pois não fui o que esperaste,
nem nunca o quis ser,
nem quero, prefiro cair e perder,
quero que me esperem assim
e é esse o meu fim.
Não corro, nem vou, mantenho-me, sou!
Não caio, nem mergulho, continuo, vou!
Fui! Não sou, nem vou! Fico!
Reflexo imaginário do que pratico,
assim, perdido no meu canto,
inviolavél, perante a vida desconcertante,
perdido... ouvindo as lágrimas a cair,
olhando debaixo o céu que deixou de sorrir,
no canto, vítima do desejo insaciavél
procurando a porta da saída, impenetravél!
Parece que ouvi o meu nome...
Não... foi engano...

Salvador Machado Guerra

O Meu Vizinho


O meu vizinho está morto,
encontrei-o vazio, absorto,
deitado, pálido de expressão
como quem não tinha outra solução,
procuro-me e reencontro-me
introspectivo, desencontro-me,
fixo-o como a um espelho,
pobre, envolto no seu vermelho.

O meu vizinho, há pouco, morreu.
Instantes antes, a vida percebeu,
que fuga tão pouco era a morte,
mas que nem a vida lhe dava sorte,
tristeza que lhe trouxe complexo,
agarro-me a ele como a meu reflexo,
tento perder-me mas contínuo impávido
quis meu destino que eu fosse ousado.

O meu vizinho quis e suicidou-se,
arriscou mais uma vez e assustou-se,
nele vejo cravos tecidos no peito,
estranhos costumos deste sujeito,
quis ele que seu grito fosse amplo,
em nele vejo mais uma vez meu exemplo,
que da vida pouco ou nada desejou,
e nem isso seu rumo lhe proporcionou!

O meu vizinho por fim desapareceu,
sua dor foi o que mais transpareceu,
farto e nefasto, está feito o desbaste,
que foi duro e prolongado o seu desgaste,
desgraçado, vejo-me nele, destruído,
que do meu dia a dia foi destituído,
fel que me dava profunda amargura,
doce fogo que apagou minha figura!

Salvador Machado Guerra

Lobos

Que da noite que cheguei,
o sabor dos lobos que fitei,
na sombra da minha solitária caminhada,
olhares cintinlantes que me diziam nada,
que das lágrimas que se despediam,
a perseguição dos que não me temiam,
os lobos que me encarceraram
na solidão do lamento me queimaram,
animais bandidos que me tornam ao memento,
que fria a noite que me eterna o pensamento.
Que da noite que cheguei,
que desta noite ainda não terminei,
fito o bicho que me há isolado
nesta via estreita que me despeço derramado
ao lobo que me rasga o peito
na minha e sua fúria me tem desfeito,
fito o seu sorriso de sangue mascarado
que sua alegria é segredo envenenado,
a sua felicidade é meu doce entusiasmado.

Que da noite que cheguei,
aos inúteis lobos me lancei,
que esta vida é ultima e explorada,
fúria e fel solto de uma só golada,
a este passado que em futuro teima ser,
que vivo sem uma única vez sobreviver,
que teimo sem uma única vez me convencer...
Mas que desisto sem uma única vez perder,
Mas que choro sem uma única vez lacrimejar,
foi assim que me vi ao rio me lamentar...

Que da noite que cheguei,
e que o lobo cerrei e acompanhei,
até ao fim do segundo entalado,
o tempo voa acelerado mesmo parado
na agonia e angústia que têm fluído,
é agudo e infinito o desesperado ruído,
e roido me ajoelho ao uivo do lobo,
em mais um grito de mudo fôlego,
desespero a morte pelo bicho que me consome,
já não aguardo por alguém terno que me tome...
...da noite que ainda não cheguei,
do lobo que ainda não derrotei...

Salvador Machado Guerra

Monólogo

Monólogo

Bateram-me à porta, abri, estava escuro,
beijou-me a brisa e eu me senti obscuro,

ninguém estava...

comigo discursei, entristecido pela figura
neste coração que, estúpido, ainda perdura.

Quanto mais eu vivo, mais eu desejo morrer,
porque esta vida me trai e daí anseio perecer,
porque deixa de fazer sentido tudo o que fiz,
toda a vida que me passou e que afinal nada me diz!

Que a força que eu assimilei e tudo o que desejei,
não passou de uma triste ilusão que eu desenhei,
é triste esta razão que começou a deixar de o ser,
RAIVA de mim que me deixei, idiota, falecer!

Esta conversa que é tão interessante!
Que me quero e te quero neste instante,
que me tocas e de longe te quero ver,
pois neste momento me senti a morrer!

Monólogo desta irreal desumanidade,
nunca pensei passear por tal atrocidade,
que me ajoelho, desespero e penso...
puta de de vida que finalmente me torna tenso!

Choro, com grande resistência, o que sou,
tudo o que ganhei e ultrapassei, destroçou!
Sou o que fui, mera e sôfrega imagem
de quem nunca pensou voltar a esta passagem!

Sem demasiadas mentiras e ilusões...
foi em sonhos que afugentei tais ações,
sonhos reais que me quiseram para o fundo atirar,
de quem tem força mas se deixa, por fim, afogar...

Salvador Machado Guerra