quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Capital

Cinzento, em torno do que me é respeito,
este falso brilho que é de meu proveito,
é êxtase sussurrado em flagrante espiral,
que eu vivo nesta escuridão sem final.

Que se me cravo em mim minhas presas,
é doce o mel que jorra das indefesas,
e eu quero, pois é louco o oco irremediado
é apaixonante o ato descontextualizado.

A mim me perdoo a luxúria do pensamento,
é de minha vontade o eterno lascivo lamento,
de não me poder sentir encalorado neste instante,
nesta multidão de anseios que é constante.

Eu que me tento, sem querer, de controlar
que paro, sem nunca me querer largar
que quando venho a mim, estou de arma empunhada,
expectante à palavra da escuridão irada!

Se em mim me faço o que é de eterna solidão,
que ninguém me toca neste meu tronco de emoção,
que te quero esses utópicos lábios ensalivados,
que estou sedento por desdenhar os sossegados!

É meu o gélido sentimento nulo e corajoso,
neste túmulo em que temo sem ser moroso,
aguardo que me acalentem em virgem discurso
nessa língua sensual que me desperta o impulso!

E quando me sinto perseguido pela minha insanidade
é puro orgulho que lanço da sombra em vanidade...
E quando eu não receio seguir este sentimento,
temo que do mundo eu espelho arrependimento!

Salvador Machado Guerra

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