
O meu vizinho está morto,
encontrei-o vazio, absorto,
deitado, pálido de expressão
como quem não tinha outra solução,
procuro-me e reencontro-me
introspectivo, desencontro-me,
fixo-o como a um espelho,
pobre, envolto no seu vermelho.
O meu vizinho, há pouco, morreu.
Instantes antes, a vida percebeu,
que fuga tão pouco era a morte,
mas que nem a vida lhe dava sorte,
tristeza que lhe trouxe complexo,
agarro-me a ele como a meu reflexo,
tento perder-me mas contínuo impávido
quis meu destino que eu fosse ousado.
O meu vizinho quis e suicidou-se,
arriscou mais uma vez e assustou-se,
nele vejo cravos tecidos no peito,
estranhos costumos deste sujeito,
quis ele que seu grito fosse amplo,
em nele vejo mais uma vez meu exemplo,
que da vida pouco ou nada desejou,
e nem isso seu rumo lhe proporcionou!
O meu vizinho por fim desapareceu,
sua dor foi o que mais transpareceu,
farto e nefasto, está feito o desbaste,
que foi duro e prolongado o seu desgaste,
desgraçado, vejo-me nele, destruído,
que do meu dia a dia foi destituído,
fel que me dava profunda amargura,
doce fogo que apagou minha figura!
Salvador Machado Guerra
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